Chove copiosamente la fora... Oiço as gotas baterem vigorosamente nas portas de vidro, como que num chamado outrora familiar, mas que hoje as impede de me molhar. O impeto e impulso de menina pequena e rebelde que me levaram tantas e tantas vezes a descalçar, fugir da professora com cara de madrasta ou bruxa ma e ir chapinhar nas poças, nao me importando com o severo castigo posterior, nao se igualavam com a sensaçao de tal, ele que viesse, valia a pena, mas com a idade parte desse prazer vai sendo retirado, dando lugar a outros. Nao igualaveis mas naturais...

Ainda hoje, apesar da idade, responsabilidade, peso, nao ter a inocencia ou ingenuidade da menina de 1º ou 2º classe, perco tempo a olhar e sentir a chuva cair-me no corpo, escorrer-me pela face, caracois, sentindo aquele arrepio delicioso que so ela provoca... Nao conheço o termo ou objecto guarda-chuva, excepto por protecçao de quem amo mais que a mim mesma, mas para mim... Nao existe. Nada iguala a sensaçao de estar assim... No meio do "nada", abstraida de tudo e todos, e sentir a essencia da vida escorrer-nos pelo corpo abaixo, e relembro os tempos que revejo agora em geraçoes seguintes. Surge a vontade de perder a noçao de tudo e juntar-me na dança que um dia dançei com a mesma idade, tamanho, sonhos e aspiraçoes... Imensas vezes o fiz e ainda faço, sao recordaçoes que guardo como minhas,ainda alimento. e que sei que serao guardadas da mesma forma que as minhas foram e sao,num bau sem preço, tamanho, forma ou conteudo que valha a pena a nao ser o nosso, o do saudosismo, o da alegria de momentos vividos como nossos ou partilhados, o da alma...
Chove copiosamente la fora... e a nostalgia deixou um travo meio adoçicado, meio amargo... O de poder lembrar momentos volvidos, o de nao os poder pincelar de novo nos tons que deveriam ter sido, o de os poder acalentar e partilhar de forma mais colorida e abrilhantar a vida de quem amo, deixando um travo a algodao doce e traços de arco-iris, como que pintando o quadro perfeito... Deixando-me a mim com vontade de voltar aos tempos encantados de menina rebelde, que fugia da sala de aula, se descalçava e ia chapinhar nas poças...
Amanha o sol nasce e traz com ele outra cor, outra magia, outra vida, mas... como esta... nao ha... cada uma sendo unica na sua forma de ser, sentir e viver.... Vontade de ser menina de novo e poer-me perder nela se pensar em mais nada do que o simples prazer que ela proporciona...